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03

Apr

“Dance, dance, dance, otherwise we are lost”

por Ricardo Archilha

Pina é, sem dúvidas, um projeto ousado, grandioso. Não apenas pelo fato de ser o primeiro filme artístico em 3D ou por tratar-se, afinal, de quase duas horas de… dança. O documentário de Win Wenders em homenagem à coreógrafa Pina Bausch (1940-2009) pode ser mais do que aparenta ser; basta deixá-lo penetrar pelos óculos e atingir a alma - o que não é difícil. Mais do que belas imagens, o diretor leva à tela pedaços (através de filmagens antigas, depoimentos e reconstrução de coreografias) de quem foi esta mulher, que com a sua arte, o seu trabalho duro e a sua genialidade, transcendeu a dança a um patamar jamais explorado. 

Quebrar tradições não é uma tarefa fácil. Em 1973, com 33 anos e já formada em Dança e Pedagogia da Dança, Baush foi convidada para dirigir o Balé do Teatro de Wuppertal, o mesmo em que começara a sua carreira. A ousadia avant-garde da coreógrafa chocava o público que, muitas vezes, a vaiava ou retirava-se no meio da apresentação. É que no palco, os dançarinos de Pina não dançam; eles correm, pulam, gritam, choram, desafiam-se a cada movimento. Teatro-dança era como que viriam a chamar o seu trabalho. Entretanto, para ela, trata-se de uma “abordagem psicológica individual”. Dela, dos dançarinos e dos espectadores. 

A produção do documentário começou em 2009, com Baush ainda viva, que junto com Wenders, chegou a  gravar quatro de suas peças que estariam no filme: “Le Sacre du Printemps” (1975), “Kontakthof”(1978); “Café Muller” (1978) e “Vollmond”(2006). O vazio deixado pela sua morte impediram o diretor de continuar o trabalho, entretanto, para completá-lo, Wenders diz ter buscado adotar o método da própria Pina: questionar os seus dançarinos. Ele busca olhar através das pessoas, assim como Pina, e diz que, o filme é exatamente sobre esse olhar.  ”O que me interessa não é como as pessoas se movem, mas sim o que as move”, diria a coreógrafa. 

No filme, fica muito clara a relação da artista com os seus pupilos. Através dos depoimentos (explorados por Wenders de maneira peculiar, em que a câmera se aproxima dos rostos que permanecem calados e, em off, vem a narração) é construída a imagem de alguém que conhecia os limites e as dificuldades de cada um com quem trabalhava, ao mesmo tempo em que os encorajava, os forçava e os libertava, enxergando-os como pessoas, antes de dançarinos. Sobre os desafios, ela costumava dizer: enlouqueça. Uma das dançarinas diz que para atingir o estado cobrado por Baush, imaginou-se arrancando os cabelos.  

O filme de Wenders é um pouco de loucura, uma anarquia simétrica muito bem editada, filmada e pensada. A fotografia e a direção de artes são bárbaras, se não, surreais. As cenas acontecem em em cenários ao ar livre da Europa, palcos, salas e até em um túnel com grafite dos Gêmeos… A dança conversa com o ambiente, com o mundo e é esse um dos pontos também enviesados por Wenders. Fala-se, em certo ponto da fita, a importância que Baush dava aos elementos da natureza, característica essa captada muito bem pelo diretor. Água, terra, ar e fogo permeiam o filme junto com suas significâncias: dor, leveza, agonia, liberdade… O corpo liberta-se através da dança e esta sempre em simbiose com a natureza. “Dance, dance, dance, senão estamos perdidos”, ela costumava dizer. 

Com dançarinos de diversas nacionalidades, a multiculturalidade não é deixada de lado por Wenders, que reúne 40 tipos de música de países e épocas diferentes. A coreografia “Água” (2001), por exemplo, é dançada ao som de “Leãozinho”, de Caetano Veloso. Um dos depoimentos, também é pautado por uma brasileira. “Pina foi embora tão rápido, tão de surpresa… Eu acho que no fim, ela deixa tudo atrás de si e se sente livre; por isso eu queria oferecer a ela este momento de leveza, de uma sensação sem peso…”.

O que Wenders ofereceu a Pina, e ao mundo, foi esta que ouso dizer, ser uma obra-prima. E o que podemos oferecê-la é a libertação, seja pela dança, seja como for, trata-se de deixar a alma transcender o corpo e… dançar. 

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